CRIANDO,PRESERVANDO,FUTUROS CAMPEÕES

GURU DO AMOR

10/04/2015 14:37

Com mais um livro saindo do forno, o psiquiatra Luiz Cuschnir diz que nunca vivemos tempos tão propícios para a vida a dois. Confira esta entrevista inspiradora e conselhos práticos para ser ainda mais feliz no relacionamento.(por Dagmar Serpa).

Tanto a mulher quanto o homem ganharam liberdade graças às muitas mudanças das últimas décadas. Os papeis de um e de outro já não são únicos e estanques. Ela hoje tem carreira e não precisa de um provedor a qualquer custo. Pode escolher seguir o clássico roteiro casar e ter filhos ou abrir mão das duas coisas. Já ele adaptou expectativas e busca alguem para compartilhar sonhos, em vez de dona de casa perfeita. Está livre para ficar com quem ganha mais, ser pai ativo e demonstrar emoções sem medo. Ambos só entram e permanecem em uma relação quando e porque querem. Não é à toa, o psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschmir, especialista no estudo do comportamento feminino e masculino, há 40 anos nessa estrada, decreta: nunca vivemos tempos tão propício ao amor. Supervisor de psicoterapia e coordenador do Grupo de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, ele lança seu décimo terceiro livro no próximo mês.

Em Ainda Vale a Pena(Planeta) e nesta entrevista, aponta os caminhos para os casais aproveitarem plenamente esses ventos que sopram a favor.

'HOJE AS PESSOAS FICAM JUNTAS PORQUE QUEREM. NÃO HÁ MAIOR LIBERDADE DO QUE SE GUIAR POR SEU QUERER".

Você diz no livro que vivemos tempos muito bons para sermos felizes no relacionamento amoroso. Por que? Olha, a gente tem mesmo essa possibilidade de viver melhor a dois. Os novos tempos liberaram a entregas, que é a condição primeira para a relação amorosa. Não que isso baste para tudo acontecer de maneira mais plena, pois cada um tem os seus problemas na hora de se doar. Mas a sociedade está dizendo: "Vá, pode ir, pare de se prender, fale tudo, transe tudo, viva!" É um estímulo. Hoje, pode-se valorizar uma relação simplismente porque ela tem significado para você. Não é porque precisa casar, deve ter filhos ou é feio alguem estar sozinho... Antes o casamento era uma necessidade e vinha carregado de obrigações. Agora as pessoas estão livres até para não casar. Só ficam juntas porque querem. E não há maior liberdade do que se guiar apenas pelo seu querer.

Se tanto peso saiu dos nossos ombros, porque que nem sempre vemos uniões felizes? Onde estamos errando? Sim muito peso foi tirado das costas dos dois. Hoje o homem sabe se virar sozinho, cuidar da roupa, muitas vezes cozinha melhor que a  mulher. E ela não precisa mais do provedor. Pode ter sonho de ter filho, mas pode pensar em não ter. Houve quebra de paradigmas. O que estraga é a falta de atenção. Tem a ver com a atual necessidade de consumo absoluto de tudo: lazer,excercícios físicos, relacionamentos...É difícil prestar atenção em torno e valorizar os momentos de felicidade que vão compor uma vida feliz se voce olha e pensa: "Ainda não tenho isso e aquilo". Se uma mulher fica só imaginando que o marido deve chegar e dizer quanto é bonita e como é bom estar com ela, não perceberá a cena real. Não verá que os dois se abraçaram e ele perguntou algo sobre a vida. Acorda! Os casais ganham mais quando se olham de verdade do que consumindo uma quantidade de coisas  para oferecer ao outro.

Parece simples ... porque nem todo mundo consegue? - Acho que há muito barulho interferindo nas relações. É o barulho das crenças e dos mitos que cada um carrega. E há o barulho das relações anteriores tambem e o de amigos e amigas fazendo comentariozinhos capazes de zoar a cabeça da pessoa. A gente diz que quem é inteligente não vai escutar e se deixar afetar, mas uma frase às vezes sem importância pode repercutir na relação, e nem ele e nem ela percebem que foi tanto assim. E não é so de fora para dentro, há os ruidos do próprio casal. O homem e a mulher esquecem que cada um tem sua individualidade e ela deve ser respeitada.

Tem que prestar atenção. Quando a gente trabalha com isso, observa como a vida à dois é invadida. Então, tudo é mais importante: a profissão, o filho que não tem limite, a programação de férias.. Quando vê, o casal já foi para a Cucuia. Não se tem respeito pelo vínculo, ninguem pensa nele. E o vínculo entre um homem e uma mulher é delicado e precioso. Parece bobagem, coisa de autoajuda, mas é verdade. É valiosa essa chance de passar uma vida se entregando a uma pessoa.

O QUE MAIS ESTRAGA ESSE VÍNCULO? - O contato do casal se perde com a maior facilidade. Por isso, os dois precisam se empenhar em preservá-lo como se fosse a coisa mais importante da vida. No entanto, a gente vê o oposto. Há muitos casais que abrem sua privacidade sem respeitar esse laço. Eles estão com amigos e falam da intimidade deles na sala de visitas. Vira uma devassa."Ah, ele é isso e aquilo." "Olha, a gente nem transa mais". Ainda: "Ela gasta pra burro". E as coisas dos dois viram piada, diversão para todos. Um faz o outro de palhaço e claro que, quando estiverem juntos, sentirão os efeitos. Mágoas e decepção só alimentam a frustração.

COMO FAZER PARA FUGIR DE CILADAS ASSIM? -  A gente tem que desenvolver a sensibilidade e a capacidade de colocar no lugar do outro e enxergar pelos olhos dele. Pronto: na hora em que os dois conseguem chegar aí, o casal está numa relação saudável. Claro que não é fácil, mas se pode transformar isso em um plano: melhor do que cobrar é perceber o outro.

O QUE SE DIZ É QUE INVESTIR EM AUTOCONHECIMENTO AJUDA A ENXERGAR O OUTRO COM MAIS CLAREZA. CONCORDA? - Se você tem uma nuvem em sua frente, verá sempre através dela, sem se dar conta. Se a nuvem é "todo homem é sacana", não dá para enxergar com clareza aquele que está ali ao lado.Se retirar o véus, não existe a possibilidade de realmente perceber o outro, de ser capaz de ver os aspectos bons e os ruíns  sem fantasiar nem se convencer que ele é só uma parte. A idéia é perceber o todo e dizer: " Eu posso estar bem com esse lado pior e ainda tenho esse lado melhor". A relação fica mais fácil, porque você deixa o outro mostrar quem  é. Não precisa adaptar.

AJUDA A CONSTRUIR CUMPRICIDADE, ALGO SABIDAMENTE ESSENCIAL PARA UMA RELAÇÃO - Os dois precisam viver coisas marcantes juntos. Mas, com o corre-corre de hoje, sobra tempo para o casal ter momentos especiais? Qual a saída?

Cumplicidade tem a ver também com acompanhar a vida do outro, não só fazer as coisas juntos. E apoio emocional é imprescindível. A pessoa precisa saber que tem um companheiro que a valoriza, dá força para conquistar aplausos e vibra com as vitórias. Estar ali, também, nos momentos ruíns e de medo. Nem que seja só para dizer: "Poxa sei como é difícil o que está passando, vejo seu sofrimento". São palavras de valor, porque isso é cumplicidade.

TEM DE CONSTRUIR CUMPLICIDADE E MANTER A CHAMA ACESA.-  É comum os casais reclamarem de escassez de sexo com o passar dos anos e mesmo se separarem por isso?

Olha, eu recebo em consultório tanto a queixa de falta de sexo quanto a de traição. São coisas que vão contaminando a relação e, de repente, as pessoas não conseguem mais ficar juntas. A falta de sexo é vivida como rejeição.A sensação para o homem e a mulher, é a de que não agrada. Quando o outro não está afim, a pessoa pensa: "Não valho nada". Eu não acho que se deva romper um casamento por falta de sexo nem por traição. Seria desqualificar o que existe de bom numa relação. Mas é dificil ver por esse ângulo, porque a pessoa senta para ver novela e se depara um tempão com cenas de amores tórridos, abraços e beijos cheios de emoção. Quem consegue se isentar? Você diz: Eu quero para mim!" Como a pessoa aceita que não tem um deus ou uma deusa e aquele calor todo? Aí ela entra na rede social e os amigos estão lá lindos, felizes, se beijando. Um casamento é mais do que isso.

COM A LIBERDADE QUE A MULHER E O HOMEM TEM HOJE, NINGUEM VAI QUERER FICAR NUMA RELAÇÃO SE O SEXO VAI MAL, É RARO OU SEMPLISMENTE NÃO EXISTE -  Aí você vem e afirma algo como "aguenta firme aí". O que quer dizer?

Que as coisas podem mudar, seja porque se insere alguma nova maneira na relação, seja porque o casal vai atrás de uma ajuda para saber o que está apagando a chama e resolver isso.Acho importante tentar mudar, porque terminar para começar outro casamento é, muitas vezes trocar seis por meia dúzia. A pessoa até pode conseguir o que não tinha, mas não terá outra coisa. Sempre faltará algo.

E sabemos que nenhuma paixão dura para sempre e aquele grude do início desaparece. Qual o segredo dos casais felizes para driblar a tendência à monotonia? É uma arte, mas há casais que conseguem se retroalimentar. Vivem intensamente os eventos da vida à dois. A chegada dos filhos por exemplo. Ou uma segunda lua de mel, que às vezes é um desastre, mas pode confirmar a importância do outro. Então, eles não tem mais a paixão, mas tem o amor e coisas acontecendo. Não há monotonia. Eles enfrentam juntos os riscos e suprem bem a paixão. E há a valorização do outro, a percepção de que quem está ao lado é um ser que se recria e está sempre trazendo coisas novas para a relação. Portanto, quanto mais interessante a pessoa for e continuar sendo, mais dará motivo para o parceiro olhar e falar "Nossa!"(ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA CLAUDIA/FEVEREIRO/2015)

 

 

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